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Rompendo o silêncio na e a partir da igreja

Violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes: rompendo o silêncio na e a partir da igreja

Cruz_EntreCruzesELetras-ZipNet-MenorE as praças da cidade encher-se-ão de meninos e 
meninas que brincarão em suas praças.
(Zacarias 8.5)

Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. 
(ECA. Art. 5)

A violência e abuso sexual em suas várias formas praticadas contra crianças e adolescentes não é nenhum fato novo, todavia tem ganhado mais visibilidade nos últimos tempos, talvez porque nossa sociedade pós-moderna descobriu que não se pode mais tolerar tal prática, totalmente contrária aos direitos fundamentais da pessoa humana. A violência cometida contra crianças faz parte de um contexto histórico-social maior de violência em que vive nossa sociedade que se dá sempre contra o mais fraco, neste caso, a criança e o adolescente.

O relatório da CPI-Comissão Parlamentar de Inquérito de 1993 sobre a violência sexual trouxe o tema à tona até então desconhecido do público em geral, a partir daí a sociedade civil organizada, principalmente através de suas ONG’s, deu início a várias campanhas de conscientização. Recentemente foi concluído o relatório final de outra CPI do Congresso que indiciou mais de 200 nomes envolvidos em abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, infelizmente o “peixe mais graúdo do relatório”, um vice governador de estado foi retirado por uma manobra política na votação do relatório.

O fenômeno da violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes está presente em todos os estados brasileiros, com suas especificidades, por exemplo: no nordeste predomina o turismo sexual, principalmente de estrangeiros que se dirigem ao nordeste não apenas em busca de suas belas praias mas também de meninas que empurradas pela pobreza vendem o corpo muitas vezes com o consentimento da própria família. No Vale do Jequitinhonha, a região mais pobre de Minas Gerais, são meninas de até 10 anos de idade que se oferecem as margens da BR com placas de R$1.99. No norte do Brasil, principalmente Pará e Acre, apesar de ter sido denunciado a mais de 10 anos pelo jornalista Gilberto Dimenstein em seu livro intitulado “Meninas da Noite”, ainda se tem notícias do “Leilão das Virgens”, onde meninas de 10, 12 anos são “arrematadas” por fazendeiros e se tornam verdadeiras escravas.

O abuso sexual e o pacto de silêncio familiar
Talvez uma das piores formas de abuso sexual cometido contra a criança e o adolescente seja a intrafamiliar, por ser a forma mais difícil de ser detectada e denunciada, se dá na maioria das vezes dentro de casa e por parentes ou pessoas muito chegadas da família. Segundo pesquisa da ABRAPIA, ficou constatado que os principais abusadores são pais biológicos e não padrastos como se acredita. É muito comum, portanto, crianças serem abusadas e os outros membros da família como mãe e irmãos mais velhos protegerem o abusador com medo de represarias ou pela certeza da impunidade.

Romper com os pactos de silêncio que encobrem as situações de abuso sexual é uma das questões chaves para o enfrentamento deste fenômeno, denunciar, é o primeiro passo para romper com o ciclo de violência que a criança vive muitas vezes por muitos anos.

Quando o caso chega à igreja: o que fazer?
A esta altura você deve estar pensando; o que tudo isto exposto acima tem a ver com a Igreja? É comum pensarmos que a igreja está livre desse problema, mas infelizmente os fatos e algumas pesquisas mostram o contrário, parece que este fenômeno está muito mais presente em nossas igrejas do que pensamos, segundo uma pesquisa feita por uma psicóloga do CEARAS – Centro de Atendimento às Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar, que atende casos de incesto encaminhados pelo Fórum de Pinheiros-SP, os casos atendidos de famílias que se identificaram como evangélicas superou em muito os caso de pessoas que se identificaram como de outras religiões. Uma pesquisa de outro Centro baseada na Zona norte de São Paulo identificou um índice ainda maior, de 60% dos casos atendidos como de famílias que se identificam como evangélicas.

Os casos precisam ser mais bem analisados para se tirar conclusões mais precisas, porém, a constatação do grande número de casos ocorridos nas igrejas deveriam servir de alerta para que possamos abrir os nossos olhos para que façamos alguma coisa.

Creio que estes dados nos mostram que o fenômeno da violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes chegou dentro de nossas igrejas e temos o desafio de fazer alguma coisa, ou seja, ajudar a romper o pacto de silencio que geralmente impera nas famílias onde ocorre este tipo de abuso.

Gostaria de concluir este texto com uma recomendação de nosso Credo Social onde diz: “Em cada época e lugar surgem problemas, crises e desafios através dos quais Deus chama a Igreja a servir. A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, consciente de sua própria culpabilidade e instruída por todo conhecimento competente, busca discernir e obedecer à vontade de Deus nessas situações específicas”.

Gostaria de propor duas atitudes: a primeira é de arrependimento por sermos tão omissos diante de tantos problemas que atingem nossas crianças. Devemos confessar a Deus a nossa incompetência de não conseguirmos proteger nossas crianças de todas as formas de violência, das quais são vítimas principalmente dentro de nossas igrejas. A a segunda atitude é desafiarmo-nos a fazermos de nossas igrejas uma ampla rede de proteção onde as crianças de nossas ruas, nossos bairros, nossa cidade encontrem paz, o verdadeiro Shalon de Deus.

Que Deus nos abençoe nesta grande, porém abençoada tarefa.

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    • Sobre o autor(a):

    • Welinton Pereira

      é assessor para assuntos eclesiásticos da Ong cristã Visão Mundial.
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