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Por que crianças deficientes não são incluídas na Igreja?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 10% de todas as pessoas do mundo apresentam alguma deficiência. Cinco por cento de todos os bebês nascem com deficiências, e até 12% das crianças em países em desenvolvimento adquirem Criancas_deficientes_internaalguma deficiência decorrente de acidentes, doenças ou violência. Essa dura realidade demonstra a forte relação entre pobreza e deficiência de forma geral.

Cerca de 600 mil pessoas com deficiência moram em Los Angeles, nos Estados Unidos. Este é provavelmente um número muito modesto, já que poucos estudos foram realizados. A isso se acrescenta o estigma de certos pais que relutam em admitir que tem filhos deficientes.

Certo pastor amigo meu relatou uma história que parece ser muito comum. Quando criança, ele fez amizade com um menino de sua comunidade e conheceu toda sua família. Havia rumores de que eles tinham outro filho, que nunca fora visto e ficava escondido num quarto nos fundos da casa. Meu amigo, que já os tinha visitado, não acreditava naqueles rumores até o dia em que, passando pela casa, viu uma ambulância levando uma criança. Ela era visivelmente deficiente, mas seu amigo nunca soubera dela. Infelizmente, esse tipo de situação ainda faz parte de nossa cultura. Algumas pessoas deficientes não têm oportunidade de fazer parte da sociedade de forma efetiva. Deus nos desafiou a quebrar as normas sociais quando elas contrariam seus princípios; ainda assim, nossas igrejas refletem o que ocorre na sociedade. Temos um número enorme de igrejas, algumas grandes e a maioria pequena, mas poucas pessoas deficientes parecem participar da vida prática do Corpo de Cristo. Por quê?

Historicamente, a igreja tem estado entre os que reconhecem a importância de cuidar de pessoas necessitadas e, de fato, a própria Bíblia apresenta várias referências sobre como os cristãos devem cuidar das viúvas, dos órfãos, dos pobres e dos refugiados. Ela também menciona especificamente pessoas deficientes. É surpreendente, porém, quão pouca ênfase tem sido dada a isso nas programações e ministérios de nossas igrejas, principalmente com relação a crianças. Enquanto a sociedade tem gradualmente notado esse grupo vulnerável de pessoas, a igreja, no entanto, não acompanhou esse progresso.

O preconceito ainda existe. Em certa igreja, por exemplo, um homem tentou entrar no templo para o culto de domingo. Ele não podia andar, era muito pobre e não tinha cadeira de rodas; por isso, se arrastava pelo chão. Quando ele finalmente chegou à porta da igreja, depois de uma dolorosa e desgastante jornada partindo de seu pequeno quarto, os porteiros da igreja negaram sua entrada sob o argumento de que ele não era digno de entrar daquele jeito. Ele voltou pra casa com o coração triste e nunca mais tentou entrar numa igreja novamente. Ele morreu pouco tempo depois. Talvez nunca saberemos a diferença que faria se ele tivesse sido bem recebido na igreja naquele dia em vez de ser rejeitado.

Certo pastor foi convidado a visitar uma família nova na vizinhança. Ele descobriu que eles tinham um filho autista e precisavam de ajuda, pois ele era muito barulhento e apresentava um comportamento estranho. Ele se ofereceu para orar pelo menino, mas pediu que nunca o levassem à igreja, pois isso entristeceria e perturbaria a congregação.

Esse tipo de discriminação é extrema; porém quando a igreja age de forma indiferente e não faz nenhum esforço para receber essas pessoas de braços abertos, também está agindo com discriminação.

Diz-se frequentemente que as igrejas não têm rampas porque pessoas em cadeiras de rodas nunca vão à igreja; ou que não há equipamentos para surdos porque não há nenhum surdo na igreja. Ora, ninguém se sentirá bem-vindo se não puder participar do culto ou acessar as instalações da igreja. Se a igreja não construir rampas ou disponibilizar Bíblias em áudio para pessoas cegas, como elas se sentirão incluídas?

Desde a década de 80, a sociedade tem percebido que as pessoas com deficiências são especiais e podem enriquecer suas comunidades. Atualmente, sabe-se muito mais de sua importância e valor na sociedade, e, com as novas legislações, incluindo o reconhecimento dos direitos humanos para pessoas deficientes, têm ocorrido mudanças para incluí-las e dar a elas o máximo de acesso a uma vida digna e independente.

Então, por que é que nos perguntamos sobre o seu lugar na igreja? Infelizmente, a igreja ainda não percebeu o quanto essas pessoas com deficiência são importantes para Deus. Se já erramos ao ignorar as crianças, erramos ainda mais ao ignorar as necessidades e os direitos das crianças com deficiência. Precisamos nos conscientizar porque se nós, o Corpo de Cristo, não começarmos a incluí-las em nossos programas e atividades, essas crianças talvez nunca aprendam sobre o amor de Deus.

Em seu ministério, Jesus mostrou inúmeras vezes o quanto Deus valoriza e se importa com aqueles que têm deficiências. Ele rompeu barreiras culturais, tocou-os, falou com eles, deu-lhes dignidade e os encorajou a viverem na sociedade e a participarem do reino de Deus. Lucas 14 mostra como Jesus vai além e dá instruções específicas. Ele nos ensina a mesma mensagem de várias formas, para que nós, como igreja, percebamos e mudemos nossa maneira de nos relacionarmos com aqueles que vivem com deficiência. Primeiro, Jesus mostra com suas ações que a pessoa e sua qualidade de vida é sempre mais importante que a manutenção de leis e costumes rígidos. Ele é compassivo e toca a mão de um hidrópico, curando-o num sábado (v. 1-6).

Depois, dá instruções específicas sobre priorizarmos os marginalizados, os pobres e aqueles com deficiência. Sabemos que Jesus frequentemente referiu-se a diferentes grupos que eram desvalorizados e ignorados. Entre eles estavam os pobres, os refugiados, os órfãos, as viúvas, as crianças e as pessoas com deficiência.

Jesus se dirige diretamente a nós, nos ensinando que nossas regras sociais não se aplicam (v. 12-14).

Ele então conta outra história, caso não tenhamos entendido sua mensagem (v. 15-24). Todos amam histórias e, geralmente, ouvimos mais atentamente uma história do que um discurso formal. Essa história é sobre um homem rico que dá um banquete e convida muitos amigos. Porém, esses amigos dão desculpas e não vão à festa. Então o homem rico ordena que seus servos convidem todas as pessoas pobres e deficientes da circunvizinhança. Essas pessoas ficam felizes por terem sido convidadas e todas vão ao banquete. Elas não precisam mudar de roupa ou ser curadas antes; simplesmente vão e desfrutam do banquete do jeito que estão. No entanto, como o lugar ainda não está cheio, o homem rico manda seus servos irem além da circunvizinhança e falarem a todos sobre o convite.

Quando lemos esses versículos tão conhecidos, nos sentimos tentados a entender o significado do nosso jeito. Contudo, o contexto se refere a Jesus nos ensinando a convidar pessoas deficientes para entrar em nossas casas e deliberadamente dividir com elas o que outras pessoas não poderiam. Não precisamos complicar a interpretação quando a palavra de Deus é clara. Ele está nos dizendo que se importa com aqueles que são fracos e marginalizados. Ele ama e aceita os deficientes da mesma forma que ama e aceita aqueles que não têm deficiência. Ele deseja que todas as crianças tenham acesso a ele e isso inclui aquelas que têm deficiência.

Então, como podemos seguir a Cristo e convidar crianças deficientes a nossas reuniões e ministérios? Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que nossa resposta tem sido muito lenta; talvez nem saibamos quem são essas crianças em nossa região. Podemos começar fazendo uma investigação, nos propondo a conhecê-las e descobrir suas necessidades. Devemos também olhar para nossas igrejas e ministérios e reconhecer que precisamos fazer mudanças. A fim de incluir crianças com diferentes tipos de deficiências, talvez precisemos buscar ajuda especializada para lidar com as mudanças necessárias. Normalmente, as melhores pessoas para ajudar são pessoas deficientes. Analisando o estado de nossas igrejas, veremos o quanto há para mudar; e é aí que não podemos desistir. Pode ser um longo processo, mas podemos começar com pequenas mudanças — elas farão toda a diferença para algumas crianças.

Ao criarmos rampas e transcrevermos as mensagens, estamos tornando o reino de Deus acessível a crianças deficientes. Estamos fazendo a obra de Deus e convidando essas pessoas a terem uma vida abundante.

Você já sentiu o desejo de ajudar sua igreja a crescer? Há milhares de famílias que não têm podido participar da igreja porque seus filhos não são bem-vindos. Deus está chamando muitos de nós a estender uma mão amiga e convidar essas crianças a entrarem no reino de Deus. Assim que começarmos a conhecê-las, começaremos a entender seu valor. E nós seremos os mais beneficiados!

    • Sobre o autor(a):

    • Brenda Darke

      é missionária da Latin Link, Coordenadora do Fórum Capaz para pessoas com deficiência da Viva América Latina.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 10% de todas as pessoas do mundo apresentam alguma deficiência. Cinco por cento de todos os bebês nascem com deficiências, e até 12% das crianças em países em desenvolvimento adquirem alguma deficiência decorrente de acidentes, doenças ou violência. Essa dura realidade demonstra a forte relação entre pobreza e deficiência de forma geral. Cerca de 600 mil pessoas com deficiência moram em Los Angeles, nos Estados Unidos. Este é provavelmente um número muito modesto, já que poucos estudos foram realizados. A isso se acrescenta o estigma de certos pais que relutam em admitir que ...

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