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Paternidade Participativa em defesa da infância

Em nome do filho

pai_e_filhoEm teu nome busquei entender o meu eu
Em teu nome descubro a pureza que há em mim por te amar tanto
Em teu nome redescubro-me
Desenterro-me
Expando-me
Em teu nome posso sentir a riqueza dos bons momentos que serão contados no futuro
Em teu nome permito-me desarmar-me para brincarmos de simplesmente sermos nós dois
Em teu nome sou capaz de repensar ações e rever alguns atos
Em teu nome corrijo-me
Redesenho meu auto-retrato
Rejunto-me para servi-lo por inteiro

Introdução
Diante das discussões em torno da multiconceituação de infância notamos claramente que o conceito desta está diretamente ligado ao contexto de uma determinada sociedade.

Por ser humana, portanto dinâmica, a sociedade tem o poder de configurar e/ou reconfigurar os conceitos de vários fenômenos, sendo assim a infância, como coloca Martins Filho (2006), apresenta-se como sendo as “infâncias” ou” infância plural”, ou seja, não podemos pensar a infância como um fenômeno generalizado já que esta tem seu conceito abstrato.

As discussões realizadas na disciplina Educação Infantil, ministrada pela Professora Faní Quitéria (UEFS), a partir de textos como o de Marita Redin e Euclides Redin (2007), por exemplo, nos fazem pensar sobre a forma a qual concebemos a infância. Inevitavelmente nos surgem “insight’s” sobre nossa própria infância, sobre o ser criança, sobre nossa visão entre o que fomos quando crianças e os conceitos apresentados durante a aula. Tais inquietações sugerem grande reflexão em torno do cunho filosofal ou social que englobam a infância “ontem” e hoje.

Perpendicular a essas discussões surge também multiconceituações em torno da paternidade. A paternidade predominante outrora, centrada no modelo patriarcal, tem sido cada vez mais enfraquecida devido às novas demandas sociais.

Há hoje uma valorização da presença do pai na vida dos filhos, que sugere o aparecimento de nova concepção de paternidade, que incorpore valores diferentes dos de gerações anteriores.

Encontramos na literatura diversos trabalhos relativos à maternidade e família, no entanto ao se tratar de paternidade notamos mais trabalhos no âmbito jurídico, como investigação de paternidade e paternidade sócio-afetiva, por exemplo.

Portanto faz-se necessário empunhar a bandeira da paternidade participativa buscando a conscientização da paternidade de modo mais responsável, valorizando a importância de sua participação na vinda e na vida de seus filhos. Com isto, homens e mulheres poderão estabelecer vínculos mais solidários e sólidos, o que certamente irá produzir gerações futuras de crianças emocionalmente mais ajustadas, estáveis, seguras e, portanto, muito mais felizes.

Para “entrelaçar” temas tão interessantes (paternidade e infância) apresentaremos neste trabalho, com o auxilio de levantamento bibliográfico, consultas cibernéticas e reflexões oriundas das aulas de Educação Infantil (Profª Fani Quitéria, UEFS), alguns conceitos de infância e paternidade e as possibilidades para um melhor atendimento à infância baseado numa paternidade mais afetiva.

1. Representações da Infância
Ao longo dos anos o conceito de infância sofreu alterações significativas. Compreender a origem desses conceitos, analisando a infância do ponto de vista histórico, pode nos revelar muito sobre a sua situação nos dias de hoje.

O índice de mortalidade infantil, devido às péssimas condições de higiene (aproximadamente no século XII), era de grande proporção.

Pode-se apresentar um argumento contundente para
demonstrar que a suposta indiferença com relação
à infância nos períodos medieval e moderno
resultou em uma postura insensível com relação à
criação de filhos. Os bebês abaixo de 2 anos, 
em particular, sofriam de descaso assustador, 
com os pais considerando pouco aconselhável investir
muito tempo ou esforço em um “pobre animal
suspirante”, que tinha tantas probabilidades de morrer
com pouca idade. (HEYWOOD, 2004, p.87).

As crianças que conseguiam atingir uma certa idade não possuíam identidade própria, só vindo a tê-la quando conseguissem fazer coisas semelhantes àquelas realizadas pelos adultos, com as quais estavam misturadas. Sendo assim, dos adultos que lidavam com as crianças não era exigida nenhuma preparação. Tal atendimento contava com as chamadas criadeiras, amas de leite ou mães mercenárias (CALDEIRA 2005).

Mais tarde, segundo Áries (1981) a criança começa a ter mais atenção da família.

Trata-se um sentimento inteiramente novo: os pais
se interessavam pelos estudos dos seus filhos e os
acompanhavam com solicitude habitual nos 
séculos XIX e XX, mas outrora desconhecida. (…)
A família começou a se organizar em torno da criança
e a lhe dar uma tal importância que a criança saiu
de seu antigo anonimato, que se tornou impossível
perdê – la ou substituí – la sem uma enorme dor, que
ela não pôde mais ser reproduzida muitas vezes, e
que se tornou necessário limitar seu número para
melhor cuidar dela (ÁRIES,1981, p.12).

Para Caldeiras (2005) a mudança de paradigma no que se refere ao conceito de infância está diretamente ligada com o fato de que as crianças eram consideradas adultos imperfeitos. Sendo assim, essa etapa da vida provavelmente seria de pouco interesse. A autora ainda cita Heywood (2004) que nos informa que “Somente em épocas comparativamente recentes veio a surgir um sentimento de que as crianças são especiais e diferentes, e, portanto, dignas de ser estudadas por si sós” (HEYWOOD, 2004, p.10).

É notório que a representação atual de infância é conseqüência do dinamismo social que nos engloba, e que é preciso nos atentarmos para tais transformações para compreendermos a dimensão que a infância ocupa nos dias de hoje.

Este percurso (esta história), por outro lado, só foi
possível porque também se modificaram na sociedade
as maneiras de se pensar o que é ser criança e a
importância que foi dada ao momento específico da
infância” (BUJES, 2001, p.13)

2. Representações de Paternidade
A entrada da mulher no mercado de trabalho tem subvertido as relações de poder e dominação entre os gêneros. A emancipação feminina e suas reivindicações de participação social são também responsáveis por conflitos e reposicionamentos novos, imperceptíveis nas antigas famílias. Um outro aspecto dessas mudanças segundo Souza e Dias (2003) são os paradigmas capitalistas que promovem apenas o que é monetariamente gratificante, efetivamente contribuem para a subvalorização dos trabalhos domésticos e outros, ligados à figura feminina.

Embora tais transformações repercutam na concepção de paternidade, existem, ainda, no imaginário social, “sobras” da estrutura tradicional. Não se trata apenas de colocar em questão determinado modelo de paternidade, e sim todos os referenciais de identidade individual, aos quais cada um tende a se moldar. Não há, talvez, em qualquer família, vigência de modelos homogêneos: contingências sociais, econômicas e culturais articulam-se aos fatores individuais e emocionais, reorientando a organização da família. Redefinem-se as relações internas e externas (RESENDE, 2001).

Adotar formas alternativas de convivência familiar torna-se, cada vez mais, prática freqüente em nossa sociedade. Criam-se espaços para a manifestação diferenciada da paternidade. Se de um lado, exigências sociais operam pulverizando a figura do provedor, de outro, as famílias buscam a se organizar, formando casais de dupla renda ou de dupla carreira. Emerge então nova figura paterna, não mais ancorada no poder econômico (MONTEIRO, 2001).

A despeito da “minimização” do papel do pai na família, Sutter (2008) faz referencia á Flaquer (1999) que nos informa:

A perda da legitimidade do patriarcado é uma das
mudanças mais importantes que caracterizaram o
fim do século XX, tendo como um de seus
sinalizadores o aumento de famílias monoparentais
chefiadas por mulheres e o ofuscamento da figura do
pai na constelação familiar (p. 75).

Este “ofuscamento” que Flaquer (1999) refere-se desencadeia no homem uma crise no seu papel de pai, o que consequentemente abre a necessidade da emergência para um “novo modelo paterno”.

Nos dias atuais a mídia tem também um papel fundamental na configuração desse modelo paterno. Como afirma Sutter (2008):

O pai embalando o bebê tem sido uma imagem
bastante explorada pela publicidade, o próprio
símbolo de uma paternidade contemporânea que
aponta uma grande novidade: a de que os homens
são capazes de se interessar pelo recém nascido (p. 75).

3. De pai para filho: a emergência de um novo modelo paterno em nome da infância
O que pensar sobre infância quando se é pai pela primeira vez? De que forma se pode estabelecer relação entre a tentativa de se definir infância e a infância do próprio filho? O que significa “dar ao meu filho a infância que não tive”?

São questões que requerem reflexão, questões que remetem ás abstrações como também aos fenômenos de continuidades e/ou rupturas sociais. O que nossos pais quiseram para nossa infância (sem nos consultarmos antes, diga-se de passagem) pode permanecer ou já não servir para o que queremos para a infância de nosso filho, é como uma espécie de transmissão geracional:

A transmissão geracional acontece quando uma
geração precedente assume o papel de transmitir à
sua sucessora seus valores, crenças e modos de agir.
E, nesse processo de transmissão, as concepções
passadas de uma geração a outra nesta cadeia
geracional abrem sempre uma brecha para se
acrescentar algumas variações, que seriam marcas
próprias de cada geração (ALEIXO 2008; apud.
TEYKAL, 2007 p.24).

As pessoas que relatam sua infância como sendo boa atribuem isso ao fato de não ter precisado trabalhar, nem dedicar-se excessivamente ás atividades preparatórias, “ocupando” seu tempo exclusivamente com os brinquedos e brincadeiras.

Raramente se ouve relatos do tipo: “minha infância foi marcada por muitos beijos e abraços de meus pais” ou “até hoje beijo meus pais, não importa se sou um adulto, importa é nos amarmos da mesma forma de quando eu era criança”. Ou seja, é preciso conceber a infância enveredando pelos caminhos do amor, mas não aquele amor meloso, impregnado de discurso demagogo, quase que plagiado de filmes ou novelas, nos referimos ao amor na sua essência pratica mesmo, nos refirimos ao toque, ao carinho, ao olhar, o beijo, o abraço, o saber ouvir, o saber permitir ou proibir. Não estamos falando daquele amor de apenas comprar o brinquedo, mas sim do querer brincar com o filho (mesmo sem o brinquedo).

Acreditamos que a palavra-chave para se compreender a infância é o amor, pois desta forma ganhamos da criança o passaporte para esse universo tão próprio que por muitas vezes é invadido à força pelo universo normativo dos adultos.

O interesse de um homem pelo mundo infantil pode acentuar-se a partir do momento que este se torna pai. A paternidade participativa apresentada por Sutter (2008) nos traz a reflexão da importância do pai na infância do seu filho (a).

Em nosso trabalho intitulado O Super-pai: A emergência de um novo modelo de paternidade apresentamos o perfil do pai carinhoso, amoroso e que se envolve ativamente nos cuidados cotidianos do seu filho (a). Envolver-se no cotidiano do próprio filho (a) é sem duvida o ato de maior proximidade que um pai possa ter com esta criança, o brincar, a hora do banho, o pegar no colo, a troca das fraudas, a cumplicidade entre pai e mãe (independente da situação conjugal), o ato de entender que aquele choro precisa ser cessado pela compreensão e não pelo tapa, essas e outras atitudes positivas são maneiras de vivenciar esse momento de descoberta para ambos: o pai que descobre a essência da infância baseado no próprio filho (a ) e a criança que por sentir-se segura vive essa infância numa plenitude garantida por este que o protege.

Conviver ativamente nos cuidados com o filho (a), envolver-se emocionalmente de maneira pura, desarmada, sem necessidade de mecanismos de defesa, é uma forma de compreender esse universo numa quase regressão, ou seja, num gesto de absoluta amorosidade em que se estabeleça uma relação de igualdade.

Acreditamos que alguns estudos interessantes sobre a infância como Redin (20007), por exemplo, podem nos auxiliar na compreensão do universo infantil, no entanto de nada vale ler ou escrever sobre tal tema se não houver o real interesse no “objeto de estudo” (a criança).

Onde há amor há compreensão e é nessa compreensão que ganhamos força para derrubar conceitos preestabelecidos, precisamos criar nossos próprios conceitos a partir da nossa própria vivencia, não apenas vegetarmos nessa mera reprodução de padrões sociais.

Para compreender é preciso conviver, para conviver bem é preciso amar, “quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu” e o amor é o que devemos oferecer para a infância dos nossos filhos, “saber amar é saber deixar alguém te amar” e é da forma mais pura que há em nossos corações, sem interesses, sem cobranças, sentindo cada gesto um do outro, vivendo sem essa segregação Mundo adulto – Mundo infantil.

Quem não se envolve não se desenvolve, portanto a relação amorosa pai-filho é de grande beneficio para a experiência paterna bem como para uma infância bem vivenciada para a criança.

Considerações finais
Queremos ressaltar que, infelizmente, é sabido que a maioria dos casos de violência contra a infância parte dos próprios pais. Portanto reforçamos a idéia de empunharmos a bandeira da paternidade participativa até mesmo como uma forma de incentivo que, consequentemente, desembocará numa assistência mais digna às nossas crianças. Não poderíamos deixar de reverenciarmos a representatividade amorosa da figura materna. Ambos, pai e mãe, independente da situação conjugal e status social, podem e devem, ao menos, tentar estabelecer relações e ações que viabilizem o bem estar, ao menos emocional, da criança.

Mudanças sociais estão ocorrendo e acreditamos que a infância tem tido merecido e necessário destaque. As mudanças nos modelos de paternidade podem contribuir significativamente nas estruturas conceituais do que seja infância.

Finalizamos sinalizando para a necessidade de mais trabalhos nesse aspecto, principalmente com pesquisa de campo mais amplas. Conforme alguns trabalhos relativos à paternidade já é percebível que estamos vivenciando pequenas e graduais mudanças na relação pai-filho (a).

Rereferências:
ALEIXO, Joilson e IRIART, Mirela. O Super-pai: a emergência de um novo modelo de paternidade. UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana 2008.

ALEIXO, Joilson. A infância que quero para o meu filho. Feira de Santana 2008. Disponível em: Eduardo Gama Fonte: INTERPRENSA – ANO V – Número 49 – Agosto/2001 – Disponível em:www.interprensa.com.br, acessado em: 28 de janeiro de 2009.

EVELISE,Tânia, O novo pai. Disponível em: acessado em 28 de janeiro de 2009.

MALDONADO, Maria Teresa. Comunicação entre pais e filhos: a linguagem do sentir. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.

REDIN, Marita; REDIN Euclides, Porque é de infância […} que o mundo tem precisão! (Texto apresentado na Disciplina Educação Infantil do curso de Pedagogia da UEFS, Professora Fani Quitéria em 29 de outubro de 2008).

SUTTER Christina & S. N. F. Júlia, Pais que cuidam dos filhos: a vivência masculina na paternidade participativa – Universidade de Fortaleza – UNIFOR, 2008.

TEYKAL, Carolina Macedo. De pai para filho: uma reflexão sobre identidade paterna e transmissão intergeracional em duas diferentes gerações / Carolina Macedo Teykal. Rio de Janeiro, 2007.

CALDEIRA. O Conceito de infância no decorrer da história. Disponível em: . Acessado em: 25 de janeiro de 2009.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

HEYWOOD, Colin. Uma história da infância: da Idade Média á época contemporânea no Ocidente. Porto Alegre: Artmed, 2004

Fonte: Artigonal SC #1206477 – Vou Contar Tudo Pra Meu Pai: A Paternidade Participativa Em Defesa Da Infância 

    • Sobre o autor(a):

    • Joilson Aleixo da Slva

      é pedagogo. Autor de o Super-pai: A emergência de um novo modelo de paternidade.
Em nome do filho Em teu nome busquei entender o meu eu Em teu nome descubro a pureza que há em mim por te amar tanto Em teu nome redescubro-me Desenterro-me Expando-me Em teu nome posso sentir a riqueza dos bons momentos que serão contados no futuro Em teu nome permito-me desarmar-me para brincarmos de simplesmente sermos nós dois Em teu nome sou capaz de repensar ações e rever alguns atos Em teu nome corrijo-me Redesenho meu auto-retrato Rejunto-me para servi-lo por inteiro Introdução Diante das discussões em torno da multiconceituação de infância notamos claramente que o conceito desta está ...

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