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O valor da vida, a Lagoa da Pampulha e a menina Isabella

Quando o saco de lixo se abriu, içado do meio do lago sujo da Pampulha, e deixou aparecer a bebê gordinha, roupinha rosa, chorando semi-sufocada pela água, não houve quem não se comovesse. Eu mesma vi a cena na TV duas vezes com lágrimas nos 09_04_recem_nascidoolhos, meu marido emocionado do meu lado dizendo o mesmo que cinco milhões de brasileiros:

– Vamos adotá-la, querida?

Isto foi há alguns anos atrás. Neste final de semana o Brasil parou “mesmerizado” diante da TV ouvindo os detalhes do suposto assassinato da menina Isabella. Uma criança de 5 anos, que queria ser bailarina.

Márcia Suzuki, presidente da ONG Atini conduziu uma série de entrevistas antropológicas sobre salvação de bebês em tribos indígenas, bebês como os que foram salvos pela JOCUM em 2005, culturalmente destinados ao sacrifício, e de repente vivos, olhos reluzentes, perninhas gordinhas, risadinhas acompanhando com olhos espertos os que passam ao seu redor.

Numa destas entrevistas ela conversou com Iari. Filha de um tribo amazônica, deveria ter sido morta na infância, mas foi salva milagrosamente pela misericórdia de um casal de missionários. Hoje, adulta, dona de casa, mãe de duas filhas, ela diz para Márcia:

— É… Todo mundo fala que a minha vida deveria ter um significado especial, que Deus deve ter um plano importante para mim já que fui salva de maneira excepcional. Mas acho que não. Sou uma dona de casa como outra qualquer, vivo minha vida com decência e honestidade e é só.

Iari tem uma historia como a de muitas crianças que estamos encontrando, algumas são até parte integrante de nossas famílias missionárias. Todas, crianças extraordinárias. Algumas sobreviventes de torturas, flechadas, espancamentos, fogo, afogamentos propositais, covas nas quais seriam enterradas vivas como o menino encontrado pelo cachorro. Outras vítimas do desprezo tribal, do mais completo abandono social, por terem nascido deficientes, portadoras de alguma síndrome qualquer que as tornou, aos olhos da tribo, menos gente. Maíra é uma destas e até hoje, aos onze anos, mesmo estando com sua família adotiva há dois anos, capitula sempre com um sorriso servil e tímido mantendo-se distante do mundo. Sofreu abusos sexuais e outras violências das mais variadas desde os dois anos de idade. Ser abusada constantemente sem receber nenhum amor era a sua vida. A morte lhe teria sido um presente. Mas sobreviveu.

Márcia Suzuki mesmo tem uma filha adotiva, Sorriso é o significado de seu nome. Seria muito longo este texto se eu tivesse de narrar-lhe as misérias os abusos, o abandono total no qual viveu por 3 anos até ser resgatada da cultura que a rejeitava. Quando Sorriso chegou para conviver conosco na comunidade, todos dedicamos um amor intenso por ela. Teve um dia em que ela passou de braço em braço sendo recebida e orada por cada um de nós, enquanto lhe ungíamos simbolicamente as cicatrizes que tinha no corpo. Uma garotinha de seis anos com o tamanho de um bebê de seis meses que talvez não andasse mais, nem falasse. Ela escapou, sobreviveu, hoje, fala, ri, anda e ostenta feliz um primeiro nome: Ana, que quer dizer “cheia da graça”. Ajudamos agora a produzir um documentário sobre ela, que esperamos será de grande impacto no Brasil e no resto do mundo.

Olhando pra Ana Hakani (Sorriso), para a bebê da Lagoa da Pampulha, para Maíra e para as vítimas em atacado que estamos achando, é fácil fantasiar sobre a mensagem preciosa na vida de cada uma delas. Mensagem de redenção, de amor mesmo quando toda a esperança já se foi, Deus se virando contra os esforços humanos e dizendo “Não, esta daqui vocês não vão matar”. Em que se tornará a menininha encontrada na Pampulha, prematura de cinco meses, sobrevivente, vítima da fúria assassina da própria mãe? Quem sabe vai crescer para se tornar uma reformadora social, uma presidente da república, uma escritora de renome?

Esta é a nossa tendência, pensar que a vida lhes foi uma espécie de prêmio que deve ser retribuído com um desempenho à altura. Deus a salvou para depois usar. Deus cobra o dom da vida com serviço. Que equivocados estamos. Concordo com Irani. Nenhuma destas meninas extraordinárias tem que ser extraordinária. Elas podem só crescer e viver como cada um de nós fez, sem expectativas sensacionais, apenas vivendo. Elas podem ser donas de casa comuns, esquecendo seus traumas no amor do dia a dia de seus futuros esposos e filhos. Elas podem nunca chegar a exercer um cargo público, ou nunca fazer nada além de viver.

A vida não lhes foi dada como prêmio. Era seu direito por nascimento. Elas não nasceram para morrer na tenra idade assassinadas por seus pais ou por sua tribo. Elas nasceram para viver como qualquer outra criança que cresce neste mundo. O dom da vida que Deus lhes deu tinha apenas uma função: fazê-las existir. Elas são preciosas porque existem, e Deus se alegra e regozija na vida de cada uma delas. Vida por si só, pulsar de coração, fluir de sangue, respirar, ser espírito vivente e eterno, que honra o criador por estar aqui, por seu DNA peculiar, sua íris, seu nome espiritual.

Extraordinária não é a vida que lhes foi concedida, nem a graça de Deus que lhes salvou. Extraordinária é a maldade que lhes deveria matar, é a perversão das mentes que lhes rejeitou, é a crueldade e indiferença humana que lhes pisou por cima. Normal é a vida, excepcional é a maldade. Normal deveria ser o amor e, diferente, a crueldade.

Crueldade esta que hoje votamos no Brasil para legalizar o assassinato da vida intra-uterina. A mesma vida a que tinha direito Isabella, a mesma vida a que tem direito Hakani e Iari, também têm os bebês ou “fetos” (quando usamos a denominação eufemista que nossa sociedade lhes dá). Estes bebês preciosos sobre quem estamos decidindo o direito de viver, como se fossem uma mera propriedade da mãe, ou evento indesejável na vida de uma mulher. O direito de matar não torna a mulher mais digna, mais liberada ou mais valiosa. É o contrário, quem trabalha para contradizer o valor da vida está des-dignificando a própria existência…

    • Sobre o autor(a):

    • Bráulia Ribeiro

      é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão.
Quando o saco de lixo se abriu, içado do meio do lago sujo da Pampulha, e deixou aparecer a bebê gordinha, roupinha rosa, chorando semi-sufocada pela água, não houve quem não se comovesse. Eu mesma vi a cena na TV duas vezes com lágrimas nos olhos, meu marido emocionado do meu lado dizendo o mesmo que cinco milhões de brasileiros: – Vamos adotá-la, querida? Isto foi há alguns anos atrás. Neste final de semana o Brasil parou “mesmerizado” diante da TV ouvindo os detalhes do suposto assassinato da menina Isabella. Uma criança de 5 anos, que queria ser bailarina. Márcia ...

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