Jesus e as crianças, ontem

1. Mistérios foram manifestos 

O primeiro encontro de Jesus com uma criança aconteceu quando ele ainda era um bebê, ou melhor, um feto, no útero de Maria. A criança com quem se encontrou, João Batista, também não havia nascido, estava no útero de Isabel. O resultado foi um dos relatos mais misteriosos e belos dos evangelhos. Isabel se encheu do Espírito Santo e profetizou. Maria transbordou de alegria e expressou o que sentia num cântico magnífico! As duas, unidas pela soberania do Deus eterno, viram abrir-se diante delas um novo mundo onde haveria grande alegria, justiça e paz (Lc 1.40-47).

2. A bênção do encontro se estendeu a toda a família e comunidade

Ainda no início do seu ministério, Jesus cura o filho de um oficial do rei. A melhora do menino foi extraordinária se comparada a uma visita ao médico seguida de tratamento à base de antibióticos (ou outros remédios), como é comum em nossos dias. A cura resultou em uma grande fé que atingiu toda a família do garoto (Jo 4.49-54).

Somente Lucas relatou a ressurreição do filho único de uma viúva que morava em um povoado chamado Naim. A situação de uma viúva sem filhos era deplorável naquela sociedade patriarcal e agrária. Jesus sentiu a sua dor ao vê-la andando ao lado do esquife de seu filho acompanhada por uma pequena multidão. Ao ressuscitar o rapaz Jesus devolvia a ela a seguridade social e ao rapaz o papel de protetor de sua mãe. Era algo maravilhoso do ponto de vista individual e familiar, mas o efeito foi também coletivo: todos glorificaram a Deus, todos se sentiram especialmente visitados pelo Senhor. O final do relato diz assim: “Todos ficaram cheios de temor e louvavam a Deus. ‘Um grande profeta se levantou entre nós’, diziam eles. E Deus interveio em favor do seu povo” (Lc 7.16).

Seu toque curador maravilhoso tornou impossível manter o milagre em segredo!

Já no final do seu ministério na Galileia, Jesus parece querer aproveitar a morte da filha única de Jairo, o líder de uma sinagoga, para dar mais uma aula prática para seus discípulos. Pediu segredo logo depois de ressuscitá-la, milagre que realizou em particular, no quarto dela, acompanhado apenas do pai, mãe e três discípulos. Mas como poderiam se calar diante de um acontecimento desses? Até hoje, 2 mil anos depois, comentamos sobre a menina de 12 anos para quem o toque das mãos de Jesus e a sua ordem “Talitá cumi!” foram suficientes para devolver-lhe a vida (Mt 9.18-26, Mc 5.35-43, Lc 8.41-56).

3. O pai ou a mãe foram escolhidos por Jesus como peças-chaves na restauração da criança

A história da mulher cananeia que insiste com Jesus para que liberte sua filha da possessão demoníaca é extraordinária, porque dá a impressão de que Jesus não quer atendê-la. Ele a provoca dizendo: “Não é certo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. Mas ela responde à altura: “Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”.

É o primeiro relato cuja vítima de possessão demoníaca é uma criança e não um adulto. Esta menina não tinha poder nenhum para se libertar de tamanha opressão e, portanto, foi salva por conta da fé de sua mãe que perseverou mesmo diante dos obstáculos propostos por Jesus. Ele acabou elogiando a mãe e concedendo o desejo do seu coração de ver sua filha restaurada. “Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Mulher, grande é a sua fé! Seja conforme você deseja”. A história demonstra o quão importante é mantermos os olhos fixos em Jesus, mesmo se formos pouco importantes, ou até insignificantes diante da hierarquia religiosa estabelecida pelos homens (Mt 15.24; Mc 7.28).

Ao descer do monte da transfiguração no qual a glória de Jesus foi revelada, ele encontra uma situação conflituosa. Um pai tinha buscado nos discípulos de Jesus ajuda para seu filho que sofria ataques demoníacos constantes. Os ataques causavam convulsões, ora perto do fogo, ora perto da água. O menino estava definhando e tinha perdido a audição e a fala. Os discípulos, no entanto, não conseguiram libertar o garoto.

O plano demoníaco neste caso era muito claro — morte para aquele menino. Jesus entra na batalha com o propósito oposto — vida nova para o garoto. Ele demonstra que a grande arma para tais guerras é a fé, a fé no que ele pode fazer, na sua bondade e na sua boa vontade para conosco. Jesus instiga o pai do garoto para que chegue a uma convicção de fé capaz de sustentar as mudanças que ocorrerão. E quando isto acontece, Jesus liberta o menino. Depois do milagre, ele conta para os discípulos que a prática dessa fé implica em oração e jejum. Como resultado, as bases de fé de todos ali presentes, especialmente as do pai, foram testadas e fortalecidas (Mt 17.17; Mc 9.18-19; Lc 9.42).

4. As crianças foram grandemente valorizadas e abençoadas

Já no terceiro e último ano do seu ministério, ao se aproximar da Judeia e mais tarde de Jerusalém, Jesus interfere numa disputa dos discípulos sobre o maior no reino de Deus. Para tal discussão ele convida uma criança a se colocar diante dos discípulos e apresenta-a como modelo. Como este incidente afetou a vida da criança? Não sabemos. O que sabemos é que Jesus queria ensinar um princípio básico do seu reino: “aquele que entre vocês for o menor, este será o maior” (Lc 9.48).

Desejavam eles receber em seu meio a Deus, o todo-poderoso? Que percebessem, então, as crianças como um modelo. Infelizmente, parece que os discípulos não aprenderam a lição, porque não muito tempo depois, quando várias famílias trouxeram seus filhos para serem abençoados por Jesus, eles começaram a impor barreiras para que as crianças não se aproximassem de Jesus. A palavra “indignado”, que descreve a atitude de Jesus para com seus discípulos, só ocorre nesta história nos evangelhos. O que Jesus fez neste encontro? Tomou as crianças nos braços, impôs suas mãos sobre suas cabeças e as abençoou! Todo encontro de uma criança com Jesus é abençoador! (Mt 19.13-15;Mc 10.13-16; Lc 18.15-17.)

5. Crianças e adolescentes participaram do seu ministério

Como alimentar uma multidão faminta num lugar deserto? Jesus se vale da oferta de um adolescente para saciar 5 mil homens sem contar mulheres e crianças. Para o adolescente foi um grande privilégio ter seu lanche multiplicado em alimento para tanta gente. É sempre um privilégio para qualquer criança ou adolescente ter o seu pouco transformado em muito por Jesus para abençoar a outros. E o resultado? Saciedade, fartura, bem-estar físico. Todos comeram e ficaram satisfeitos (Jo 6.11-13). Isto aconteceu no segundo ano do seu ministério.

Já na última semana de Jesus em Jerusalém ele continua a contar com as crianças. Ele sabe o que está por vir, é chegada a hora. A entrada triunfal, montado em um jumentinho, e os muitos sinais que ele opera são eletrizantes. Cada dia que passa aumenta a tensão entre Jesus e os líderes religiosos que buscam matá-lo. As crianças se entusiasmam e se enchem de coragem, mesmo quando há perigo, mesmo quando as condições são desfavoráveis, mesmo quando os adultos já se calaram.

Jesus não ficou indiferente ao louvor das crianças no dia em que ele manifestou o seu zelo pela casa do Pai. Enquanto expulsava todos os mercadores do templo, as crianças gritavam “Hosana ao filho de Davi!”. Talvez esta torcida das crianças tenha sido a última demonstração pública de carinho por ele! Quando os sacerdotes e escribas protestaram contra os gritos de louvor das crianças, ele as elogiou: “Sim; vocês nunca leram: ‘Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor?”. Quando as crianças se encontram com Jesus, o resultado natural é o mais espontâneo e perfeito louvor! (Mt 21.16; Mc 11.15; Lc 19.45-47).

Elsie Gilbert

    • Sobre o autor(a):

    • Elsie B. C. Gilbert

      Editora da Rede Mãos Dadas.

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