A bagagem que carregamos na jornada

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“Há traços que precisam ser eliminados, mas uma grande parte das ferramentas da nossa mochila precisa apenas ser moderada, para servir aos nossos valores morais, e não sabotá-los”

Durante uma longa jornada a bagagem é essencial, tanto pelo que ela contém como pelo que deveria conter! A bagagem da vida é formada por ferramentas e apetrechos especiais, seus traços de caráter. Há traços desejáveis, assim como há indesejáveis. É possível modificar o conteúdo da sua mochila? Antes de qualquer coisa, lembremo-nos de que tudo o que é bom vem de Deus, e é ele, por meio do Espírito Santo, quem, com a nossa permissão, pode nos ajudar no processo de transformação.

Caráter pode ser mudado, temperamento não!
“Para se ter uma ideia da importância da formação do caráter em relação ao temperamento é só observar que, se uma pessoa tiver temperamento colérico, por exemplo, reagirá rápido e forte às situações. Se for uma pessoa produtiva, justa e amável, o demonstrará rápida e fortemente quando amar. Se for uma pessoa de caráter destrutivo ou sádico, será rápida e forte em seu espírito destrutivo ou em sua crueldade. Se o caráter de uma pessoa for destrutivo, não interessa o fato de ela agir rápida ou lentamente. A única diferença é quanto ao tempo gasto para destruir.

Se o caráter for de profundo amor e justiça, lentamente ou rapidamente, o amor e a justiça estarão fluindo a paz e a felicidade tão desejadas pelos seres humanos. Portanto, é indispensável investirmos na formação do caráter das pessoas. Nesta área da vida temos um certo espaço de influência” (Pr. Carlos Queiroz).

Então, como podemos mudar os traços de caráter que nos atrapalham e tornam rasos o nosso amor e justiça?

O que é traço de caráter?

Traço de caráter é uma característica da pessoa que demonstra seus valores morais. Ele é traduzido em comportamentos marcantes, típicos e habituais. Por exemplo, considerar o próximo como importante é um valor; torna-se um traço de caráter quando desenvolvo sensibilidade para perceber as necessidades do meu próximo de forma consistente. Vira comportamento quando, a partir dessa sensibilidade, eu tento ajudar a suprir a necessidade de alguém.


Ferramenta útil
Valor: as pessoas são importantes, portanto devemos perceber suas necessidades.
Traço de caráter: sensibilidade; percebo a necessidade do próximo.
Comportamento: tento ajudar o próximo.

 

 

Ferramenta inútil
Valor: as pessoas precisam saber que sou importante e entender a minha necessidade.
Traço de caráter: insensibilidade às necessidades dos outros.
Comportamento: a base das minhas ações é colocar a minha necessidade em primeiro lugar.

 

Traços de caráter são como ferramentas porque traduzem nossos valores e nos ajudam a agir. Quando são positivos, chamamos de virtudes; os negativos, de defeitos. A virtude e o defeito são ferramentas feitas do mesmo material, no sentido em que o segundo representa o excesso do primeiro: otimismo-imprudência, sinceridade-agressividade, bondade ingenuidade, justiça-legalismo etc.

É difícil mudar um traço de caráter porque atribuímos nossas qualidades (ou defeitos) à nossa identidade. Posso dizer: “Sou sensível. Não sei ser diferente”. Mesmo que minhas ações prejudiquem a pessoa que eu gostaria de ajudar, manterei os comportamentos que atribuo ao “ser sensível”. Nesse caso dizemos que o valor muda juntamente com o foco:

Ferramenta inútil
Valor: é importante que os outros me vejam como uma pessoa sensível.
Traço de caráter: vaidade, que é um desejo imoderado de merecer a admiração dos outros.
Comportamento: insisto em tentar ajudar mesmo quando tais tentativas não são desejadas ou apropriadas.

De acordo com o dr. Stuart Atkins, psicólogo, criador do método LIFO (Life Orientation), pecamos por excesso quando “obtemos prazer pelo uso de nossas orientações e forças… Quando exageramos nossas virtudes, o fazemos muitas vezes por conta da nossa autossatisfação”.*

Há traços que precisam de fato ser eliminados, como a maldade, mas uma grande parte das ferramentas da nossa mochila precisa apenas ser moderada, bem manejada, para servir aos nossos valores morais, e não sabotá-los. Como cristãos o nosso valor maior é o amor a Deus e ao próximo. Disto dependem todos os outros.

Custa caro mudar, só o fazemos por necessidade, quando algo nos incomoda, ou uma área importante de nossa vida precisa de ajuda. Talvez tenhamos sofrido algum trauma na infância. O valor básico de uma pessoa ferida pode ser “Eu preciso me proteger a qualquer custo”. Observe que este valor mantém o foco no “eu” e não no meu próximo. É importante tratar o trauma, porque se não alcançamos a cura, temos uma atitude derrotista para com a vida e para com as crianças ao nosso redor.

Diante da necessidade de mudar, o que é possível fazer?

1. Reconheça quando uma ferramenta se tornou prejudicial! Pode ser necessário jogá-la fora. A forma como lidou com um trauma na infância foi a melhor resposta que você, enquanto criança, podia dar àquela situação. Aquela resposta, embora talvez a única possível na época, pode não funcionar mais hoje. Insistir nela hoje pode não ser bom! Quem mentia, não minta mais.

2. Conserte as ferramentas estragadas. Isto significa adaptar suas características que, embora boas, não estão sendo usadas com sabedoria. Exagero faz mal. É preciso então avaliar suas respostas de uma perspectiva de causa-efeito (“quando faço isto, acontece aquilo”) e não da perspectiva: “É assim que eu sou, sempre fui assim”. Por exemplo, se a sua sinceridade ofende, guarde algumas opiniões para você mesmo.

3. Adquira novas ferramentas. Há alguma virtude que você gostaria de cultivar? Estude-a, descubra bons exemplos para imitar, pratique-a ao ponto de torná-la algo menos difícil para você. E não se esqueça de pedir o auxílio do Espírito Santo neste processo! “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8). (E.G.)

Nota
*Atkins, Stuart. PhD. From Freud to Rogers to Maslow. In: The Name of Your Game. Beverly Hills, CA: & Stewart Publishers, 2002. p. 303.

Quer saber mais?
1. Baixe 3 artigos adicionais sobre o assunto desta edição [em breve] 2. Use o roteiro para uso desta edição junto com seus colegas. Ele está disponível no blog Canto da Escuta, espaço moderado pela editora Elsie B. C. Gilbert: www.maosdadas.org/cantodaescuta

    • Sobre o autor(a):

    • Elsie B. C. Gilbert

      Editora da Rede Mãos Dadas.

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