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Política: nossa aliada no bons tratos para todas as crianças

Samuel tem menos de dois meses. Assim que nasceu foi separado de sua mãe para ocupar uma caminha na enfermaria. O desespero de Romilda em não poder abraçar e amamentar o filho aumentou quando descobriu que ele tinha apneia pulmonar e precisava esperar uma vaga na UTI neonatal.

Romilda é minha colega de trabalho e oramos diariamente pela vidinha de seu filho. Mas, para salvar a vida dele, uma política de saúde eficiente é tão importante quanto nossas orações. Isto é verdade para muitas crianças.

Samuel: sua mãe agradece a Deus por sua restauração e pede mais UTIs neonatais

Samuel: sua mãe agradece a Deus por sua restauração e pede mais UTIs neonatais

É possível que muitos de nós vejamos a política com maus olhos, mas, a verdade é que fazemos política também. Quando oferecemos refeições ou cestas básicas, atendemos uma demanda da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional; quando trabalhamos com reforço escolar e jornada ampliada, colaboramos com o Plano Nacional de Educação e com o Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil. Isso significa que fazemos política no nosso dia-a-dia.

O caso da Associação Crianças de Belém, em Sorocaba, SP, é um bom exemplo de parceria entre prefeitura e projeto social na implementação de uma política pública. O Programa Nacional DST e Aids prevê a parceria com organizações não governamentais (ONGs) e a Associação Crianças de Belém, que, desde 1996 atende crianças portadoras do HIV ou vitimadas pela aids, foi procurada, em 2000, pela Clínica DST/Aids da Prefeitura Municipal de Sorocaba para participar da elaboração e implementação de um projeto que assistisse também as gestantes diagnosticadas como soropositivas. Daí surgiu o projeto “Amor que vem da prevenção”.

As ações realizadas pelo poder público, como o acompanhamento do pré-natal, uso de antirretrovirais, cesariana eletiva e substituição do aleitamento materno colaboram para que a taxa e transmissão vertical do HIV caia consideravelmente, mas a simples oferta desses serviços não é suficiente para garantir a não transmissão. A adesão ao tratamento, por parte das gestantes, é indispensável para o sucesso do programa.

O “Amor que vem da prevenção”, que já atendeu, desde 2001, 120 gestantes, foi criado com a intenção de dar apoio social e psicológico para que as gestantes aceitem e permaneçam no tratamento, superem o preconceito, melhorem a qualidade de vida e a autoestima e tenham uma boa perspectiva de futuro.

Segundo Isabel Lopes, psicóloga do projeto, “as mães são mais resistentes ao tratamento psicológico, mas aqui elas criam vínculos e isso garante a frequência”.

Isabel trabalha atualmente com dez mães. Ela realiza reuniões semanais em grupo, atendimento individual quando necessário e visitas domiciliares com frequência. Segundo ela, o tratamento exige tempo e dedicação e muitas das mães atendidas não conseguem trabalhar. Elas e os companheiros enfrentam o preconceito, muitas vezes o preconceito que parte deles mesmos (“autopreconceito”), ao procurar emprego, o que agrava a situação financeira da família. Por esse motivo, o projeto também oferece auxílio-transporte para o tratamento, cesta básica e enxoval para o bebê.

Para garantir que a criança seja recebida em um ambiente de amor e carinho, é necessário criar expectativas. Segundo Isabel, com o tratamento em dia a pessoa raramente fica doente. Isso garante uma vida longa, mas muitas mães (e pais) não conseguem entender que estarão vivas daqui a dez anos. A psicóloga trabalha a concepção de si e do outro, o vínculo da mãe com a família e com o filho para fortalecer a autoestima e levá-las a fazer planos de vida em família.

As ações conjuntas do poder público e sociedade civil garantiram que em Sorocaba, desde 2004, não houvesse entre os nascidos de mãe soropositiva, uma criança convivendo com o HIV.

Ontem, já restaurado, o pequeno Samuel veio nos visitar na Editora Ultimato. No testemunho, Romilda agradeceu as orações e disse: “Vamos agradecer a Deus porque em Viçosa tem UTI neonatal, que atende toda a microrregião, mas vamos pedir para que os políticos vejam a necessidade de aumentar o número de vagas. Eles podem melhorar isso”. Assim como no caso de Samuel, vamos interceder e acreditar que Deus usa política – que nós fazemos – como seu instrumento de resposta. (T.M.)

    • Sobre o autor(a):

    • Tábata Mori

      jornalista e poetisa, coordenadora de comunicação de Asas de Socorro, voluntária da Rede Mãos Dadas, da Aliança Bíblica Universitária do Brasil.

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