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Isabella e o filho do Faraó

16_04_isabellaMais uma notícia que chocou a opinião pública, repercutindo de maneira intensa em todas as mídias: a violência contra uma criança, vítima de agressão brutal e incompreensível, comove o país. Os pais, classe média de São Paulo, são acusados de agredir Isabella Nardoni, 5 anos, levando-a à morte.

A mídia, desde a descoberta do caso, incansavelmente bombardeia a população com uma cobertura espetacular, como se casos de maus-tratos, violência e negligência contra menores fosse um fato raro no Brasil. Todavia, sabemos que apenas quando certos problemas atingem as famílias “que mais se parecem com a gente” as notícias ganham maior destaque: o apelo comercial é irresistível!

Na história do povo hebreu, que vivia debaixo da escravidão diante de um Faraó duro e insensível, a vida era de maus-tratos, violência e descaso das autoridades para com os oprimidos. Mortes e assassinatos faziam parte do dia a dia, mas ninguém se importava. Assim era a estrutura social. O Faraó, representando a liderança da época, fazia pouco caso da situação. As classes dominantes viviam à custa da exploração da pobreza, e mesmo quando o libertador enviado por Deus começou a realizar sinais e prodígios, elas não se sensibilizaram. Mas quando a “violência” entrou em sua casa, a questão tomou outro rumo!

O problema dos maus-tratos pode ser encontrado, em relatos clínicos, desde o final do século XIX1. Contudo, somente no século XX, mais precisamente na década de 60, estes passam a constituir um problema de saúde, reconhecidos sob a epígrafe “síndrome do bebê espancado — SIBE” (the battered baby syndrome). Uma década após sua definição, alguns países reconhecem, em nível mais amplo, os maus-tratos como um sério problema de saúde pública.

No Brasil, somente na década de 80 a temática da violência emergiu como um problema de saúde pública, ampliando o espaço para se discutir a questão dos maus-tratos. Com o surgimento dos CRAMI’s (Centros Regionais de Atenção aos Maus-tratos na Infância), foi possível acompanhar e mapear melhor os casos de maus-tratos. Esses centros são associados ao CMAS – Conselho Municipal de Assistência Social e CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente. Sabe-se que os índices de violência contra a criança, entretanto, aumenta cada dia.

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que apenas 2% dos casos de abuso sexual contra crianças, nos casos em que o agressor é parente próximo, chegam a ser denunciados à polícia. Estudo do Unicef revela que, de 2000 até 2005, foram contabilizados 437 casos fatais de violência no lar, causado por agressões físicas.2 A pesquisa da Abrapia – Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência – também analisada no estudo do Unicef, aponta que parentes são responsáveis, em média, por 34,4% dos casos. Como é possível ser o caso de Isabella, caso o pai e a madrasta sejam considerados culpados. Quando se trata de abuso sexual, os dados impressionam pela tenra idade das vítimas: 49% das crianças que sofrem esse tipo de violência dentro de suas casas têm entre dois e cinco anos.

E o caso de Isabella? Está situado dentro de um contexto que foge um pouco da curva da média estatística, que coloca a maioria dos relatos de maus-tratos no ambiente da pobreza. Quando o filho do oprimido grita, poucos ouvem sua voz. Por isso o “choque” da classe média faraônica e a hipocrisia da imprensa que, de forma geral, não dá a mesma cobertura para tantos outros casos de violência contra crianças. Em tese, se casos de abuso e violência fossem sempre repercutidos desta forma pelas mídias e população, Isabella poderia ter sido poupada!

Criança é criança, a vulnerabilidade é a mesma em qualquer contexto social e econômico, e o abuso é condenável independentemente de quem sejam seus protagonistas. O sentimento de repulsa e revolta deveria ser o mesmo: desde pelas crianças pobres que diariamente morrem de fome, desnutrição e negligência quanto pelas crianças vítimas de violência como Isabella, João Hélio (o menino que foi arrastado pelo carro da mãe após o mesmo ter sido levado por assaltantes num subúrbio do Rio de Janeiro) ou qualquer outra criança mundo afora!

Parece até que a sociedade criou um indicador cruel: morrer de fome na favela não é tão cruel quanto ser jogado pela janela de um prédio de classe média.

Porém, é bom que o caso de Isabella seja discutido, noticiado e debatido. Na história do Êxodo, relatada na Bíblia, lemos que o fator último que levou a mudança de atitude do Faraó em deixar o povo oprimido ser liberto foi quando a morte chegou à sua casa, à casa dos opressores, tocando seu filho. Parece haver indignação apenas quando certas classes e os governantes são tocados pela violência, quando os maus-tratos atingem nossos “Faraós”! Assim, consternados, deixaremos a indolência e juntos sentaremos e discutiremos essa questão de saúde pública. Da mesma forma que estamos discutindo a Dengue. Nem todos são culpados, mas somos todos responsáveis. Quantas crianças deverão ainda morrer para que isso também aconteça?

    • Sobre o autor(a):

    • Gustavo Brandão

      é pastor e pedagogo na ABC - Associação Beneficente Curitibana, em Curitiba, PR. A ABC é parceira de Mãos Dadas.
Mais uma notícia que chocou a opinião pública, repercutindo de maneira intensa em todas as mídias: a violência contra uma criança, vítima de agressão brutal e incompreensível, comove o país. Os pais, classe média de São Paulo, são acusados de agredir Isabella Nardoni, 5 anos, levando-a à morte. A mídia, desde a descoberta do caso, incansavelmente bombardeia a população com uma cobertura espetacular, como se casos de maus-tratos, violência e negligência contra menores fosse um fato raro no Brasil. Todavia, sabemos que apenas quando certos problemas atingem as famílias “que mais se parecem com a gente” as notícias ganham maior ...

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