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Crianças da carroça

“No te enojes! No te enojes!”. Ele a agradecia, sem lhe olhar nos olhos, repetindo essa frase que a princípio Ruth não conseguia entender.

Voltávamos a casa depois da festa de nossa filha e minha esposa resolveu entregar alguns excedentes ao hurgador que passava por aí.Meninos_Carroca-Ninos_hurgadores-Ivon_Ruiz-BP_Blogspot

Hurgadores, do verbo hurgar, que quer dizer “revirar, inspecionar, procurar com afinco”. Aqui, em Montevidéu, é cena comum cruzar com a carroça de um hurgador, muitas vezes acompanhado de menores de idade, que mais facilmente entram nos contêineres verdes onde os sacos de lixo doméstico são depositados. Há um desses recipientes em cada quadra. Buscam de tudo o que se possa aproveitar.

Diferentes estimativas dizem que há entre 5 e 10 mil hurgadores em Montevidéu. Talvez mais de 20 mil pessoas dependam economicamente dos que “procuram com afinco” no lixo.

Não se incomode
No começo, Ruth não entendeu o que ele quis dizer. Depois caiu a ficha. Como ele havia pedido se ela também tinha alguma roupa de criança que pudesse lhe prover, ele teve medo e lhe pediu desculpas à maneira em que, traduzida livremente, seria “não se chateie ou se incomode comigo”.

Como não me incomodar com a pobreza, com a fome, com a necessidade absoluta?

Montevidéu aparece hoje em manuais de “missão” com especial destaque para a chamada área menos alcançada com o evangelho, talvez de todas as Américas. Desde Punta Carretas até Carrasco, passando pelo bairro judeu de Pocitos (mistura de Copacabana-Leme-Leblon), concentra-se a população mais rica do país, com uma quantidade ínfima de igrejas evangélicas ou supostamente de cristãos espalhados por essa zona.

Uma boa quantidade de recursos das “missões evangélicas” é mobilizada para essa área. Novos missionários, especialmente de países mais ricos, com recursos para manter projetos nessa vizinhança, vão aos poucos sendo atraídos para a região.

Os resultados ainda são tímidos. Há que investir mais. Os ricos também sofrem, têm carências, também precisam de salvação.

O pobre hurgador segue seu caminho. Quase culpado por nos incomodar com seus pedidos e necessidades.

Fico aqui pensando se Deus não pensa em pregar uma peça na laica e culta sociedade uruguaia. Já pensou se ele usa esses homens, mulheres e crianças da carroça para revolucionar esse país com o evangelho de Cristo?

Eu não me “incomodaria”. Continuo “procurando com afinco” uma melhor explicação para nossos preconceitos e estratégias missionárias.

Contra os abismos
“Espetáculo próprio dos tempos de colônia!” Assim leio em editoriais de jornais prósperos e conservadores do país, referindo-se à mesma temática dos hurgadores, ou aqueles que procuram com afinco sua subsistência em meio ao lixo.

Ouço queixas acerca da falta de sinalização das carroças, dos maus-tratos aos animais, da suposta sujeira que fazem (eu pensei que eles ajudavam a diminuir o lixo, e não o contrário), do perigo no trânsito e alguns ainda apontam para a suposta ameaça inerente daqueles “outros” que remexem nosso sagrado lixo bem ali, em frente de nossas casas.

Dizem que há 8 vezes mais desses trabalhadores aqui em Montevidéu do que a média dos que se encontram em outras cidades latino-americanas.

Eu estaria longe de defender um ofício tão pouco nobre. Gostaria que fosse abolido. Desejaria que os condutores desses veículos eqüestres, muitas vezes crianças, estivessem aproveitando sua infância e adolescência de modo mais lúdico e salutar.

Mas fingir que o problema não existe ou estigmatizar quem mais sofre com essa condição não irá nos ajudar.

Uma sociedade que seja socialmente fracionada entre “nós” e os “outros” (diga-se que no Brasil o abismo infelizmente é bem maior) não possui bons prospectos para o futuro.

Falar de futuro nos remete à idéia de esperança. Tenho uma, que ainda busco alimentar. A de que o evangelho de Cristo transforme perspectivas, atitudes e políticas públicas que gerem um mundo com abismos menores e o fim de certas ocupações, que na verdade nunca deveriam ter existido.

Seria um bom começo ver esse tema sendo abordado no sermão do próximo domingo.

Artigo publicado originalmente no blog O Sul é meu Norte, em 11/11/2007.

    • Sobre o autor(a):

    • Ricardo Wesley

      é casado com Ruth, com quem tem duas filhas: Ana Júlia e Carolina. Após trabalharem muitos anos com a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), há 2 anos são missionários da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE, ou IFES, em inglês), em Montevidéu, Uruguai. Lá eles estão apoiando a reestruturação da Comunidad Bíblica Universitaria del Uruguay.
“No te enojes! No te enojes!”. Ele a agradecia, sem lhe olhar nos olhos, repetindo essa frase que a princípio Ruth não conseguia entender. Voltávamos a casa depois da festa de nossa filha e minha esposa resolveu entregar alguns excedentes ao hurgador que passava por aí. Hurgadores, do verbo hurgar, que quer dizer “revirar, inspecionar, procurar com afinco”. Aqui, em Montevidéu, é cena comum cruzar com a carroça de um hurgador, muitas vezes acompanhado de menores de idade, que mais facilmente entram nos contêineres verdes onde os sacos de lixo doméstico são depositados. Há um desses recipientes em cada quadra. ...

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