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A tragédia em Realengo: Há caminhos de esperança?

“Eu só queria que isso não acontecesse mais com pai nenhum”, diz um dos pais de aluna morta no massacre da escola Tasso da Silveira (1).

Em outras tragédias ocorridas no Rio de Janeiro envolvendo principalmente crianças, já ouvimos pais e mães se expressarem de maneira idêntica. Mas, lastimavelmente, isso teima em se repetir. Diante de uma brutalidade assim, as perguntas básicas que nos inquietam são: É possível mesmo fazer alguma coisa plausível que ajude a prevenir um ato como esse, classificado como “isolado” pelo secretário de segurança do Rio?! (2) Isso é, de fato, um fato isolado? O que pode e deve ser feito para se alcançar resultados mais positivos contra fatos assemelhados? Como e com quem se articular para ações proativas?

Acredito que um fato desses mereça sempre uma reflexão profunda por parte da sociedade, para além das tradicionais avaliações dos formadores de opinião e das pessoas em geral. E nessa tarefa, os meios de comunicação, as entidades religiosas, o poder público e outras organizações sociais podem e devem fazer muito na luta teimosa e esperançosa de se construir uma sociedade melhor e mais segura para todos, especialmente para as crianças.

Sem entrar em grandes avaliações e reflexões, que são necessárias e pertinentes, sugiro aqui, resumidamente, algumas ações que podem e devem ser aperfeiçoadas para sua possível realização e efetividade.

Solidariedade na morte e afirmação da vida

Um fato como esse exige da sociedade organizada um ritual de chorar com as famílias e amigos e reafirmar a sacralidade da vida. ONGs, poderes públicos, igrejas e outras tradições religiosas precisam marcar esse momento com uma cerimônia pública para ritualizar a morte e a vida. (No dia seguinte ao ocorrido a cidade mantivera sua rotina. Nem as escolas foram orientadas pela Secretaria de Educação a refletirem humana e pedagogicamente acerca do fato). Embora alguém possa objetar que atos assim sejam inócuos, é certamente importante tanto no sentido de não deixar cair no esquecimento coletivo quanto no processo de reafirmar os valores da defesa da vida e do apoio solidário e humano aos que sofrem pela perda de seus entes queridos.

Um vírus letal entre nós

É sabido que dentre tantas iniciativas para se conquistar uma sociedade mais pacífica faz-se necessário, por exemplo, desarmar os espíritos humanos. Além disso, também é urgente reduzir ou — numa utopia possível — retirar do ambiente social e individual o vetor que produz consequências funestas, como nessa tragédia: a arma de fogo. Esse vírus letal, absurdamente mais presente entre os civis que entre os aparelhos armados legítimos do Estado, tem matado diariamente cerca de uma centena de pessoas em nosso Brasil. É imperioso, portanto, discutir este problema e retomar as reflexões sobre o aperfeiçoamento e a aplicação do Estatuto do Desarmamento. Dados de pesquisas diversas apontam que, ao contrário do imaginado pelo senso comum, mais armas significa sempre mais insegurança, que resulta em mais violência e que produz mais mortes (3).

Uma premissa falsa causa ainda mais insegurança, pois as consequências são na direção oposta de seu objetivo.

Segurança nas escolas

A falta de segurança nas escolas é uma falha do poder público que precisa ser corrigida. Ou seja, as escolas precisam ter um sistema de controle de portarias e no ambiente da escola, inclusive com detectores de metais, se necessário, para ajudar na prevenção e inibir crimes assemelhados. Isso é uma tarefa mínima e, por demais óbvia, que já se faz tardia.

Capacitação específica dos professores e equipe multidisciplinar

Faz-se necessário também a capacitação dos professores para inclusão, de fato, dos diferentes e estigmatizados. Eles precisam de formação específica para saber identificar comportamentos tidos como estranhos ao nível básico das relações humanas. E saberem trabalhar com os “normais” que tantos problemas criam para os “diferentes”. Isso não pode ser visto como algo menor; é ainda mais importante que aprender sobre normas gramaticais, axiomas matemáticos ou leis científicas…

Por meios de métodos diversos, é imprescindível ajudar os professores a se capacitarem para cumprir além do currículo formal, o currículo sócio-afetivo-inclusivo que diz respeito à promoção de bem-estar, respeito, acolhimento e reconhecimento dos alunos, principalmente daqueles que podem ser alvo de preconceito, distanciamento, bullying e outros problemas de não-interação e não-reconhecimento social por parte do grupo. Esse é um assunto da maior importância no trabalho do professor. Alunos distantes dos demais e sem maior envolvimento social deve ser alvo preferencial dos professores, para, em diálogo com a escola e a família, buscar caminhos de apoio social. O apoio ao professor e aos demais profissionais da escola — afinal estão todos no processo sócio-educacional — deve ser feito especialmente por equipe multidisciplinar, mantida pelo poder público nas escolas para uma educação de qualidade e formação, de fato, integral.

Adoção de escolas para a promoção de cultura de paz

As entidades religiosas, culturais, sociais, que promovem cultura de paz (respeito pela diversidade, acolhimento e apoio aos diferentes, disseminação de valores como os esposados pela Declaração dos Direitos Humanos, entre outros), e que estejam mais próximas das escolas, podem “adotá-las” conforme o escopo do próprio sistema educacional. Um projeto assim deve se pautar pela legislação e pelo bom senso e não pode e nem deve, obviamente, prejudicar o bom andamento da escola. Fundamentado em um trabalho de parceria e interação, deve promover mais alegria, bem-estar e menos conflitos e violência nas escolas.

Para uma sociedade mais segura e feliz

Muitas outras considerações e sugestões precisam e devem ser feitas, para discussão e possível implementação, objetivando a ampliação e difusão de uma cultura de paz, para uma sociedade mais segura e feliz.

Quanto à fala do secretário de segurança sobre ser este um fato isolado, compreende-se, assim como também não pode ser minimizada nem eximida, por qualquer razão, a responsabilidade específica do autor dos crimes. Entretanto, se queremos ir mais fundo num assunto tão complexo como esse, precisamos questionar como e por que esse rapaz não conseguiu estabelecer vínculos sociais mais amplos e saudáveis, ou o que dificultou ou mesmo impediu que ele construísse relações de pertencimento social mais seguras e que lhe provessem maior segurança?! Um filho adotado, caçula, cujos pais já morreram (a mãe mais recentemente), que morava sozinho, certamente perdeu as referências fundamentais que ainda possibilitavam algum equilíbrio de sobrevivência…

O que podemos e devemos fazer por outras pessoas que transitam em nossos universos sociais e que têm perfis assemelhados? Para a segurança deles e também nossa, pois, parafraseando Paulo Freire, ninguém consegue segurança sozinho, só a alcançamos em coletividade. Ou, como ensina a regra áurea da reciprocidade: Tudo o que você quer que o outro faça por você, faça antes por ele.

Outras perguntas existem e para todas elas precisamos de respostas, se queremos, de fato, uma sociedade melhor e mais segura para todos. O debate, as reflexões, as respostas e os caminhos estão com todos os que aspiramos e lutamos por um mundo melhor.

Notas
(1) http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/04/08/eu-so-queria-que-isso-nao-acontecesse-mais-com-pai-nenhum-diz-pai-de-aluna-morta-em-massacre-no-rio.jhtm (Acessado em 8/4/11).
(2) http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/08/beltrame-pede-rediscussao-de-lei-sobre-desarmamento.jhtm (Acessado em 8/4/11)
(3) Os dados deste item podem ser conferidos em: BANDEIRA, Antonio R., e BOURGOIS, Josephine. Armas de fogo: proteção ou risco? Rio de Janeiro: Viva Rio, 2005 e FERNANDES, Rubem C. Brasil: As armas e as vítimas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.

Artigo publicado originalmente na revista eletrônica Novos Diálogos em 09/04/2011.

    • Sobre o autor(a):

    • Clemir Fernandes

      é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul, em Ciências Sociais pela UFF e mestre em Sociologia pela UERJ. É professor de Teologia e Ciências Sociais em faculdades e seminários do Rio de Janeiro. É também pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER), redator da revista de estudos bíblicos Compromisso (Juerp/Convenção Batista Brasileira), integrante da coordenação executiva da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e coordenador da RENAS Rio. É membro da diretoria da Fraternidade Teológica Latino Americana-Brasil e atual coordenador do núcleo do Rio de Janeiro.
Em outras tragédias ocorridas no Rio de Janeiro envolvendo principalmente crianças, já ouvimos pais e mães se expressarem de maneira idêntica. Mas, lastimavelmente, isso teima em se repetir. Diante de uma brutalidade assim, as perguntas básicas que nos inquietam são: É possível mesmo fazer alguma coisa plausível que ajude a prevenir um ato como esse, classificado como “isolado” pelo secretário de segurança do Rio?! (2) Isso é, de fato, um fato isolado? O que pode e deve ser feito para se alcançar resultados mais positivos contra fatos assemelhados? Como e com quem se articular para ações proativas? Acredito que um ...

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