Capa » Artigos » A importância de contar histórias

A importância de contar histórias

balao-fala-isdorescombrA história de uma pessoa não está relacionada apenas a um fato ou acontecimento. Ela é construída e reconstruída o tempo todo. Uns se detêm aos fatos familiares, outros a vida conjugal, e assim todos têm uma história própria. Porém, a história não é construída isoladamente.

Uma pessoa, por exemplo, tem várias histórias para contar, seja ela relacionada à escola, à família, ao amor, ao trabalho, à comunidade, à igreja… Mas porque é importante contar histórias?

Segundo a historiadora Karen Worcman (2001:15), a história não deve ser pensada apenas como resgate do passado, mas sim utilizada como marco referencial, a partir do qual as pessoas re-descobrem valores e experiências, reforçam vínculos presentes, criam empatia com a trajetória e podem refletir sobre as expectativas dos planos futuros. Partindo deste principio, a história não é algo acabado, concluído ou lacrado, mas um grande alicerce para compreender, aceitar e respeitar as diferenças.

Por isso, um dia é preciso contar a história. Antes, é preciso mais do que conhecê-la, entendê-la de maneira a extrair conhecimento, sabedoria e visão estratégica. Existe inteligência e técnica para isso. Mas, antes, é preciso disposição e determinação para restabelecer a substância dos pilares históricos . Assim, uma história nunca é só de uma pessoa, mas sim de vários atores e autores que direta ou indiretamente fazem parte.

Simultaneamente, “sua história é sua cara. Ela conta de onde você veio, para onde vai, como e com quem vai fazer esse percurso. A sua história é a sua identidade”. “Ter identidade é você saber quem é você. É você compreender-se e aceitar-se como é para, então, procurar ir transformando-se naquilo que quer ser”.

No processo pedagógico da contação de histórias, os atores são convocados a disseminarem suas histórias de vida e, com isso, há uma aprendizagem muito grande no que se refere à construção e à reconstrução do conhecimento empírico. A partir daí, o sujeito começa a entender que sua história está ligada a várias histórias. Participar desse processo remete à socialização, comunhão e reflexão sobre as diversas experiências de vida, nos âmbitos pessoal, político, social e econômico. As condições de vida em uma sociedade são influenciadas por sua história, que deve ser valorizada e sistematizada.

No entanto, a aventura do conhecimento e dos valores não é um caminho em linha reta, uma estrada única, um trilho de trem, um caminho só. É um percurso cheio de surpresa, de encantos, de caminhos cruzados, de formas, de cores, de sinais diferentes.

Cada pessoa que se arrisca a viver essa aventura tem suas preferências, seu jeito próprio de caminhar. Há quem prefira correr; outros preferem atalhos; outros gostam de emoção e risco. O importante é que o conhecimento e os valores sejam construídos por cada pessoa. O caminho é o próprio caminhar, o caminho é a própria construção (MOURA, 2003:136).

É com essa teoria e prática que a Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável, PEADS, criada pelo Serviço de Tecnologia Alternativa, Sertã, deslancha um processo de construção coletiva e individual de conhecimento, de troca de saberes e de interação entre diversos sujeitos sociais.

Partindo desse princípio, a instituição e outras entidades do Brasil todo compõem o grupo de trabalho do Movimento Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens , que visa à criação de um processo contínuo e dinâmico que possa garantir a expressão e visibilidade de histórias de vida dos jovens brasileiros.

Mais do que um acervo de histórias, o movimento pretende, através de parcerias e projetos, estimular os jovens a construírem uma nova história do Brasil. Uma história que tenha como ponto de partida suas próprias experiências, desejos e aspirações. O trabalho passa por várias etapas: contar, escrever, ler, editar e publicar as histórias. O interessante é que o jovem passa a ser o ator e autor principal de sua história – É ele que escolhe livremente qual a história deve contar.

Quando o ser humano sente necessidade de diálogo, torna-se motivante contar sua história e ao mesmo tempo partilhar com outras pessoas suas alegrias, tristezas, sucessos, fracassos, etc.

“Precisamos falar para alguém escutar, e eu encontrei esses pontos no círculo de histórias” (Carlos – Aliança – PE).

“É a primeira vez que conto minha história” (Felipe – Ribeirão – PE).

É necessário que a história seja registrada e que seja um instrumento inovador de transformação social. “É importante diferenciar o que entendemos por memória e o que entendemos por história. Memória é o que registramos em nosso corpo. Nós somos nossa memória”. Segundo Oliver Sacks (1984), se um homem perde uma perna ou um olho, ele sabe que perdeu a perna ou o olho, mas se ele perder sua memória, ele não estará mais lá para saber que perdeu a si próprio.

História é a narrativa que montamos a partir de nossa memória. É a nossa construção do que registramos. Memória tampouco é um depósito de tudo o que nos aconteceu. A memória é, por excelência, seletiva. Guardamos aquilo que por um motivo ou outro tem ou teve algum significado em nossas vidas. História é como organizamos e traduzimos para o outro o que filtramos em nossa memória . Percebe-se que a história e a memória caminham juntas.

No 1º Fórum Brasil Memória em Rede, houve uma troca muito grande de conhecimentos e experiências acerca da memória e da história. Observou-se que esses temas são de interesses de várias pessoas e instituições, independentemente de serem públicas ou privadas. O que importa, na verdade, é a disseminação e a utilidade que têm as histórias. A originalidade das histórias é marco referencial na vida das pessoas e instituições. Verdadeiramente, “o conhecimento da história pode dar pistas, inspirar, apontar caminhos”. A partir das histórias se consegue enxergar as virtudes e as inquietudes do ser humano.

Referências Bibliográficas:
COSTA, Antonio Carlos Gomes da; COSTA, Alfredo Carlos Gomes da e PIMENTAL, Antonio de Pádua Gomes. Educação e vida: um guia para o adolescente. Belo Horizonte: Modus Faciendi, 2001, 2ª ed.

MOURA, Abdalaziz de. Princípios e Fundamentos da proposta educacional de apoio ao desenvolvimento sustentável. Glória do Goitá, PE: Serviço de Tecnologia Alternativa, 2003, 2ª ed.

NASSAR, Paulo (org). Memória de Empresa: história e comunicação de mãos dadas, a construir o futuro das organizações. São Paulo: Aberje, 2004.

WORCMAN, Karen. Memória do futuro: Um desafio. In: NASSAR, Paulo (org). Memória de Empresa: História e comunicação de mãos dadas, a construir o futuro das organizações. São Paulo: Aberje, 2004.

    • Sobre o autor(a):

    • Valdiane Soares

A história de uma pessoa não está relacionada apenas a um fato ou acontecimento. Ela é construída e reconstruída o tempo todo. Uns se detêm aos fatos familiares, outros a vida conjugal, e assim todos têm uma história própria. Porém, a história não é construída isoladamente. Uma pessoa, por exemplo, tem várias histórias para contar, seja ela relacionada à escola, à família, ao amor, ao trabalho, à comunidade, à igreja… Mas porque é importante contar histórias? Segundo a historiadora Karen Worcman (2001:15), a história não deve ser pensada apenas como resgate do passado, mas sim utilizada como marco referencial, a ...

Revisão

Avalie: Seja o primeiro a avaliar
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*